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A polícia perdeu o script?

A questão da insegurança pública que assola, principalmente, os centros urbanos brasileiros merece o tratamento prioritário, tanto da mídia como das autoridade de qualquer nível institucional. Falar de unificação das polícias ou da criação de mais um órgão ligado ao tema, é perda de tempo. Pior ainda é levantar a hipótese de colocar o exército nas ruas, infeliz sugestão de ACM. Lugar de exército é nos quartéis, submetido a treinamento duro e sofisticado, bem remunerado e equipado, em condições de ser usado e deslocado com presteza.

Na frustada operação de resgate do ônibus do Jardim Botânico ficou patente o despreparo da PM para esse tipo de ação. Mas a culpa é do policial que errou os tiros ? Claro que não. E quantas vezes o bandido deu a maior sopa colocando a cara para fora da janela ? Pois bem, imaginemos que um atirador o executasse naquele momento. Será que ele não seria recriminado pela imprensa, ou pelo governador ? Como pode um subordinado ter equilíbrio emocional se lhe falta a solidariedade do seu superior ?

Imagino que o PM que atirou na Geisa esteja vivendo um grande drama e, pior, ninguém está acolhendo a dor deste jovem policial de apenas 28 anos que, provavelmente, ficará marcado perenemente pelo fracasso. O mais estarrecedor foi a demissão do comandante da PM, Cel. Sergio da Cruz imediatamente em cima do episódio. O silêncio do Cel. Josias Quintal é próprio das autoridades pusilânimes. O gov. garotinho (minúsculas propositais) foi quem anunciou a demissão pela televisão, e o secretário nem chiou. É assim que querem que a polícia confie no chefe e possa desempenhar sua difícil missão com mais de equilíbrio ?

Ainda há pouco, num programa de televisão, como para aumentar o descrédito, o locutor afirmava, de peito estufado que a PM era a polícia no mundo que mais matava. Não sei onde foram buscar essa estatística. Mesmo assim, não custava dizer que era, também, a que mais morria em combate.

Durante os últimos anos a polícia foi vista como instrumento de truculência ditatorial. Os policiais militares são verdadeiros heróis que, não obstante o desvio de conduta de alguns poucos, têm defendido a sociedade além do que se imagina. Tenho o maior respeito pela polícia, seja ela civil ou militar. Fico a imaginar se não existissem !

Uma das medidas urgentes é unificar os comandos, mas não confundir com unificação das polícias. Até porque elas obedecem a regimes jurídicos diferentes: a PM ao estatuto dos militares, e a polícia civil ao estatuto dos funcionários públicos estaduais. Um soldado PM pode ser preso por insubordinação, já o detetive terá que responder a inquérito administrativo cujo desfecho, sabemos muito bem, leva anos.

Municipalizar a polícia investigativa seria mais fácil e traria celeridade nos processos. É um absurdo que um mesmo processo seja pilotado por diversos delegados e vários detetives. Isso decorre da permanente transferência desses funcionários para delegacias das mais variadas especialidades e cidades. Aliás, essa é uma das razões pelas quais somente 5% dos homicídios chegam a julgamento. Enquanto houver essa morosidade na apuração, os criminosos gozarão da certeza da impunidade.

Gilberto Ramos